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Humorário

(um diário de rir para não chorar)

(um diário de rir para não chorar)

Humorário

29
Jun21

Ambivalência

Humorosa

Escrevo neste momento para libertar a frustração, a angústia e todo o restante cocktail de me sentir a ficar para trás quando gostaria tanto mas tanto de seguir em frente.

Isto de querer tanto viver e de querer tanto fazer parte de algo mais, maior, de cumprir a minha vida (nem que seja só para não ter medo da morte), é uma faca de "dois legumes" (dois que não gosto já agora, pode ser nabo e pode ser couve de bruxelas) porque o meu tanto querer parece que acaba a matar a possibilidade de fazer as coisas com mais calma, mais serenidade. Estou constantemente a forçar-me a ir para a frente, naquele maravilhoso padrão familiar de "push through pain", de "mantém-te alerta", "don't go gentle into that good night".

Sinto-me ambivalente. Se por um lado sinto em mim todo um sentimento de "hopeless" por outro, ainda ontem ao ver o Titanic, me apercebi em como tenho uma enorme esperança em que os maus se redimam, e subitamente, on the verge de uma morte iminente, façam boas ações, ajudem outros ou simplesmente mudem de caráter. Sou uma esperançada em simultâneo portanto. E esta sensação ambivalente é a que eu tenho percebido que caracteriza a vida.

O meu dia de ontem foi uma sucessão de frustração-ação-de-compromisso-sucesso-frustração-ação-de-compromisso-sucesso que se fosse um gráfico seria nada mais nada menos que um eletrocardiograma de alguém a ver o Titanic.

(sim vou falar mais sobre o Titanic)

Nunca tinha visto o Titanic. Talvez por dentro não quisesse ver por saber de que tema se tratava e para desgraças já tenho a minha boa amiga Alice que me carrega por dentro com um blockbuster de filmes automáticos negativos que culminam sempre no apocalipse em cuecas. Ou talvez porque tivesse vergonha de chorar em frente ao meu namorado (coisa que por acaso senti quando as lágrimas começaram a rolar pela cara abaixo como se tivessem cortado mil cebolas a milímetros dos meus olhos), mas que assim que senti deixei de parte... chorei, babei e olha, melhor assim. Lembrei-me de mim em casa dos meus pais a ver filmes destes. Onde toda uma contenção acontecia e quem chorava era fraco ou sensívelzinho... Como se não se pudesse sentir. Ou talvez não se pudesse mesmo.

Tenho vinho a perceber muito da minha história, mas como boa solution-maker que sou queria já era saltar para a resolução final do processo e bora lá que eu quero muito viver, mas não quero andar aqui com merdas ao dependuro, ou com os meus incessantes espasmos nos gémeos que não consigo deixar de valorizar porque imaginem-se a sentir gremlins dentro de vocês a tentar sair-vos pelos gémeos. Se calhar não são gremlins pronto. Já sei que eu exagero. Mas migos, são minhoquinhas a querer encontrar saída pela minha pele que obviamente não confere uma saída de emergência para elas... Tava na altura de encontrarem outra casa. É só o que vos digo.

E depois o meu cérebro cinematográfico o que faz? Mais uma vez, um Titanic a afundar, de uns espasmos nos gémeos, faz deles um Adamastor que engole o Titanic ainda antes de ele se afundar em alto mar. E claro que a única safa da minha sanidade mental é pensar que eu sou a Rose e que eu vou superar esta adversidade, vou viver a minha vida até velhinha, continuando a pintar, e manter a boa disposição e leveza até ao momento em que, cumprindo-se a história lá eu me entregue também a nova forma de ser que desconheço e que por essa razão, de momento me aterroriza como o raio.

Procuro consolo nesta história mas há uma vozinha lá dentro que diz que tenho que aprender a ser mais realista. A ser mais consciente de que as histórias não acabam sempre bem, mas que pelo menos, o que persiste é sempre a sua beleza. E isso ninguém nos pode tirar. E isso, ainda bem que está feito e desenhado para os meus olhos verem. Porque quando vejo a vida, e experiencio este estado de consciência consigo e espero conseguir sempre deslumbrar-me com o que vejo, quer seja duro, feio, negativo ou seja suave, bonito e positivo.

A verdade é que ando a aprender a navegar nestas águas da ambivalência e gostava muito de não me afundar antes de tempo.

Essa é a verdade.

 

23
Jun21

Solta-te, liberta-te

Humorosa

Bons dias a todos e a todas e a todx e a cenas e a coisas.

Ou "Menu Bom dia!" como disse um rapazinho que ao meu lado queria pedir um Menu pequeno almoço na padaria portuguesa.

Mas adiante.

Hoje venho aqui expurgar primeiro os meus demónios raivosos, ao som do Solta-te, liberta-te, isto porque ando aqui num desatino que, ou é de estar a caminhar para cota, ou então é só aleatoriamente chato mas ainda assim irritante.

Ora pois que quem acompanha o meu rico blog sabe que eu tenho nos últimos tempos sido afortunada e me safado de problemas de maior após duas quedas, uma de cu, outra de joelhos, uma situação de desemprego, dentes do siso e lá o caralho, problemas relacionais e existenciais, e ainda - cereja no topo do bolo - lidar com a minha Ansiedade, ou miss Alice como gosto de lhe chamar que por vezes toma várias formas antes de me visitar, seja sob a forma da bela Insomnia, ou do tremelique vibrador, ou do coração-tunning-de-chelas, enfim, uma míriade de formas e desenhos que só ela sabe inventar. Às vezes vêm todos! E aí "vamos fazer uma festa....bolo e laranjada muitos doces para ti... é o teu aniversário...."*

Pois que no meio deste fadário todo, tenho agora também para tocar no álbum "disgraces not so bad because you're still alive" as seguintes músicas:

  • Allergo - uma música cujo beat é feito só com fungar de nariz, pingos de água límpida a cair em lenços de papel e um som áspero de coceira em braços humanos. O refrão é mais ou menos assim:

"Ácarosssssssssss, pêloooooooosssss,

pequenas partículas bailando ao som dos ventos

retirando-me capacidade de pensamentos

deixando vermelho o meu nariz, tal qual petiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiz...

parece constipação, mas não é não,

sei o que é sim... Atchim atchim atchiiiiiiiiiiiiiiiim..."

(obrigada, obrigada, obrigadaaaaaaaaaaaaa!)

  • Flash Lux - uma música visual, feita com dois gémeos em descanso, mas que quando observados ou simplesmente em repouso se assemelham a mesas de mistura com pads luminosos que vão libertando as cores de forma aleatória, pulsando sem que seja pedido e/ou necessário. Este é o conceito de música inaudível visual aleatória. Gémeos cujos impulsos elétricos estão ao rubro em descanso. 

 

  • L'atom dubious - uma música vibracional que só se sente mas não se ouve e que mete todos os átomos em dúvida de tão intensa que é a sua frequência. Arranha por dentro, dá desconforto e faz sentir como se todos os vidros do nosso ser se fossem partir a qualquer instante. É o som da duvida existencial. Do "o que devo fazer?" "Devo escolher uma vida mais fácil, mais em fluxo? ou devo escolher a difícil, a mais dura, a que tenho que fazer overcome para ser mais e melhor?" 

 

Por fim, the last but not the least...

  • Hippocondriah - uma música ambiente sempre presente que sussura baixinho sensualona como aquelas vozes do "me liga vai". "É desta que quinas..." "É disto que vais." "Vai ser grave..." "De certeza que é grave..." "Já viste há quanto tempo andas a ouvir essas canções? Tá grave..." "Bué grave..." "Vai ser o martírio..." "Prepara-te... Estuda tudo, aprende tudo...vais precisar". E assim, sensualona, tenta seduzir-me para o seu espaço (muito pouco) seguro onde vou ser devorada por sereias que na verdade são bichos do mar.

E é isto meus senhores, as músicas que andam a ser o meu dia-a-dia, e que rolam pelo altifalante do meu ser.

Fui...

(só ali baixar o volume).

 

-----

* Música referenciada:

21
Jun21

Do meu interior nos dias últimos

Humorosa

Como é minhas pessoas assíduas que perceberam que aqui a gaja andou fora do boteco tempo a mais e agora se vem neste preciso momento redimir da sua ausência?

Podia ser bom sinal, sinal de que já tinha encontrado O trabalho. E note-se que me refiro a ele como O trabalho porque tenho feito O esforço de O encontrar e honestamente já começava a ficar na hora de me cruzar com ele.

Tem sido quase uma odisseia ao estilo do Tinder, em que honestamente os sentimentos envolvidos são muito parecidos. Swipe left, swipe left, olha este parece giro - começa a falar sobre vestir a camisola e as horas que temos que dar do corpo ao trabalho ... nop, next, swipe left, swipe left, puta que pariu mas será que não há trabalhos decentes e interessantes a serem divulgados? 

(atendo o telefone)

Sim, sim, é a própria. Entrevista? Claro. Empresa X (murmuro um sim como quem dá a entender que se lembra de ter mandado para lá o CV mas não faz puto ideia nesta fase do campeonato se mandou, se entregou em mãos, se mandou entregar, se foi um senhor do uber eats...). Ah então foi porque fui referenciada que vocês gostam mais de ter pessoas referenciadas (para não se portarem aparentemente tão mal por vergonha alheia né) do que fazer todo o processo de tentar CONHECER as pessoas. Pois claro. Ah e então é por isso que não existia anúncio(s de jeito). Pois sim sim, vamos agendar.

(desligo o telefone)

Penso para com os meus botões como já sinto que neste momento me parece que me estou a prostituir, deixando à vista os meus melhores atributos, numa tentativa de "olhem-me para este PAR... de ideias geniais que tenho neste meu cérebro super ativo e que só queria uma casinha fixe para lhe darem espaço para fazer coisas giras".

Mas o problema é que ao fim de quase 6 meses (que na verdade são 18, porque eu ando à procura desde Março do ano passado quando estava empregada e a ver que "isso ia dar merdaaaaaa... isso ia dar merda.... e deuuuu"* neste momento até os pedidos de exercícios dinâmicos e cenas fixes que eu tenho tanta pica para fazer já me parecem absurdos, anormais e um pedido que me tira do sério, porque de todas as vezes em que investi o meu tempo, me meti todinha todinha lá, veio de lá um "RADONDO" não, ou pior, *som de erva a rolar no deserto*, é do caralho minha gente. É do caralho. Não admira que o tempo ande tripolar, ou somos nós a dar-lhe espelho ou é culpa dele que andamos assim, sem tempo a perder para nos conhecermos mas queremos muito ser uma super equipa.

A melhor equipa. A equipa com mais liderança. Com o líder que é diferente de ser chefe, frase que me faz vomitar a cada vez que a oiço ou a vejo apregoada a uma foto pôr-do-sol num qualquer facebook ou até, pasme-se, linkedin perto de si.

Estamos numa era do PARECER. E para parecer não precisamos de ser. E quem é, está sujeito a um escrutínio, a uma carcerização, a ser convidado a ser original-mas-não-tão-alto-que-é-preciso-fazer-o-fit-nestas-quatro-paredes-pintadas-a-cin-ardosia-para-escrever-frases-inspiradoras-que-nao-usamos-mas-que-ficam-bonitas-nas-paredes-para-motivar-equipas.

Como dizia a outra "Blá blá blá Whiskas saquetas."

E quem quer fazer a revolução, como SEMPRE, historicamente, ou vai ficando de fora, ou é cauterizado, encostado para canto, começando a achar que não vai encontrar um espaço onde possa ser verdadeiro e cumprir o seu propósito. Sendo que a palavra propósito também já me dá calafrios. Que isso de propósito também é algo que podia ser melhor definido como algo que podemos fazer para maximizar o potencial da humanidade. Aí, ninguém andaria em coaching à procura do seu "propósito" porque caramba, esse propósito todos o temos, e se por ele fizermos algo já a nossa vida passou a ter um sentido e algo a que nos agarrar nesta viagem por vezes tão curta mas que temos e DEVEMOS saborear.

Ontem fui ver a exposição do Ai weiwei e foi toda ela um soco no estômago. Toda.

Para mim foi a prova de que a Liberdade de expressão, de existir com ideias próprias, continua a ser vista como uma afronta nos dias que correm e que realmente o potencial do Ser humano existe nas suas polaridades. Podemos fazer TÃO BEM, mas conseguimos fazer TÃO MAL a quem é diferente de nós, a quem nos pode fazer causar desconforto porque nos aponta para o sítio que fede, que tem problemas e que a maioria teima em não ver.

Ontem senti-me o Ai weiwei da minha família. E mais uma vez fui ao fundo do meu trauma quando falava para a minha mãe sobre a exposição e o quanto eu amei e senti que tinha que sair dali para fazer algo pelo mundo, pela humanidade, nem que fosse continuar a dar aulas de yoga porque já estou a contribuir para o bem-estar de algumas pessoas e pessoas que estão bem não têm necessidade de fazer mal. Como se quisesse sair dali a correr para continuar a fazer a minha parte, a alavancar a minha parte. A fazer o meu pedaço pelo mundo. A dar sentido ao estar Aqui e agora. E de repente do outro lado da linha, mais uma vez, como sempre faz e fez, um desvio de conversa, um ouvir tácito, implícito, como quem ouve porque faz parte, mas que não consegue ir além disso.

A minha mãe está cansada. Muito cansada. É enfermeira desde os 13 anos. É daquelas cuidadoras que põe os outros à sua frente e as suas necessidades (muitas das quais desconheço) nunca são ouvidas. Mas essa é a história dela. Se ela se empoderasse. Queria tanto mas tanto ouvir o seu grito de revolta. Talvez porque eu continuo a tentar dar o meu. A tentar fazer as pazes com o ser a "ovelha negra" da família, mas com uma certeza visceral que há ciclos que quero quebrar e não quero trazer comigo a bem da Humanidade que virá depois de mim...

Ou de mim.

Na exposição do Ai weiwei vi muitas atrocidades humanas. Lembrei-me de como Humanidade temos evoluído do breu escuro, peçonhento e podre para a luz, ou na tentativa de a alcançar, como um girassol.

E o mundo continuar a girar, contra todos os que diziam que quem girava era o Sol.

 

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*A música a que fiz referência é esta pérola:

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