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Humorário

(um diário de rir para não chorar)

(um diário de rir para não chorar)

Humorário

22
Jul21

"Toda a noite ..."

Humorosa

Há aquela música que canta "Inesquecível.... é o que é ... inesquecível ....."* e eu poderia substituir esta letra por "Susceptível.... é o que é... Susceptível.... é o que ela ééééééééé..." 

Estou azeda. Disseram-me isto.

Disseram-me que o meu outro lado da empatia desmedida era isto de ser susceptível, sugestionável, influenciável, manobrável, manipulável, vulnerável, impressionável e outros sinónimos que parei de pesquisar só para provar o meu ponto, que até disso já estou cansada. 

A verdade é que fiquei chateada porque isto é verdade.

Senão veja-se. Estava eu, a gerir o melhor que posso e sei os meus belos (es)pasmos continuados nos gémeos, a dormir na boa, a gerir pensamentos hipocondríacos com pensamentos super heroicos de quem já fez tudo o que podia, e por isso agora tem que esperar, e subitamente, num jantar com um amigo, ouve-o balbuciar que ele não tem andado a dormir nada e de repente, como uma gosma, entra o meu lado de auto sabotadora a relembrar-me que as minhas noites bem dormidas estavam a ser estranhas, que o normal, seria, ainda para mais com assuntos por resolver para lá dos (es)pasmos (nomeadamente, tomo a vacina do covid, tomo uma merda natural para fazer detox ao fígado depois de ter feito uma reação alérgica a um creme natural e também ele de plantinhas e o raio, quando é que vou finalmente começar a trabalhar e em quê uma vez que o meu subsídio acaba em Março do ano que vem e já estamos quase em agosto, continuo a mandar cvs? abro um negócio meu? entro mesmo pela via dos recibos verdes que para mim são tão enormes quanto um adamastor? como é que se vive esta cena de um dia de cada vez quando se é daquelas pessoas que tem uma agenda para tudo? E como é que continuo a adiar a minha vida?) e de repente... A PRIMEIRA NOITE MAL DORMIDA.

Um misto de "que se foda" e um "a culpa foi minha" tomaram-me de assalto, sempre ao som da discoteca peçonhenta do "Susceptível... é o que você é..." e no meio desta irritação, tento salvar-me a mim própria tomando um banho, abraçando a minha alma com as mãos no peito e o calor doce que me acalma quando elas lá repousam brevemente. Tem sido o meu toque, o meu "acolho-te como estás" que me tem valido.

Gradualmente nestes momentos de incerteza, dúvida e raiva, tenho procurado que a alma irrompa em minha salvação, aquela parte de mim que me acolhe com a Graça divina e me relembra sem recurso a palavras, que está tudo como deve estar.

Posto isto, claro que está que a noite passada repeti a graça (sim, a graça com g pequeno, porque pelo contrário a outra Graça tem-me bafejado bastante nos últimos tempos), e já não sabia se era do calor, da "hómidade", dos chineses ou dos vizinhos que decidiram dar início à construção da capela sistina às 6h da manhã, e acordei novamente com uma sensação de frustração de criança. Aquela sensação de quem quer comer gelados o dia todo como refeição, sabe que não pode, mas faz birra mesmo assim.

Ontem terminei o dia com aceitação e tranquilidade ao lembrar-me da frase que abre o livro que mais gostei nos últimos tempos (O caminho menos percorrido de Scott Peck) - "A vida é difícil", e ainda assim hoje "acordo" a desejar que fosse fácil, como o comum dos mortais (que também sou), a praguejar que este gémeos nunca mais voltam "à normalidade", com medo da morte (como de costume...), com medo de que passe o tempo e eu não o agarre nesta viagem de regresso a mim.

Sinto-me tão a cheirar-me, a quase-chegar-a-um-bocadinho-mais-Eu, que não queria perecer agora, não agora que estou tão perto de mim, tão quase-a-chegar-me, quase-lá, não quero quase-lá-chegar, quero viver o tempo suficiente em Graça, ou com pequenos momentos de Graça que me convençam que estou no Caminho, seja do bem-estar, seja da paz-que-quero-ter-quando-morrer.

Se por um lado saber que vou morrer me acelera esta urgência do Hoje, por outro lado angustia-me com a previsão de um amanhã que desconheço. 

Faço birras de criança porque queria que as decisões fossem mais fáceis, mais preto ou branco, mais isto ou aquilo, mais como as lentes dopadas que eu uso e que me faziam crer que o mundo funcionava de forma binária. Mas não. Tenho vindo a descobri-lo num espetro de escolhas sarapintadas por cores num degradé que nem sequer é perfeito, tal como a vida, e ainda assim perfeito na sua imperfeição de ter tanto dentro de si invisível a alguns olhos.

Encontro-me com a leveza numa música que toca, um piano que acolhe por dentro esta dor-de-ser, esta tentativa de viver-para-além-da-dor-da-existência, nesta leveza que tanto me caracteriza e que leva pessoas a reagirem por perto, como o senhor que me mudou o contador de gás ontem, dizendo que "era preciso mais pessoas assim bem dispostas como a senhora, anda tudo tão para baixo", este mesmo senhor, que sendo mais velho que o meu pai, me dizia que não sabia escrever a palavra "dígito" e eu, com a humildade, cuidado e carinho que tenho pelo processo de ensino que me sustenta como pessoa, lhe soletrei letra por letra, num processo cuidadoso e amoroso de quem ajuda a elevar o outro, como só a minha alma me grita para fazer. Esses são os momentos em que não duvido, em que a convicção é tanta, que eu sei que só posso fazer isso. Isso e os momentos em que ajudo ocasionalmente desconhecidos a pagar as suas compras, pagando eu em cartão, porque naquela caixa não lhe era permitido o pagamento em dinheiro, ou indico onde está o caldo knorr mesmo não sendo empregada da loja... 

Nada disto me retira, tudo me acrescenta.

E aí não tenho dúvidas. Essa é a minha convicção. Mas e se eu não puder fazer disso um trabalho? Mas e se eu não encontrar esse(s) espaço(s) que me acolham e que seja(m) espaço(s) que não me acossem ou expulsem? 

E depois vem-me a frase da susceptibilidade que foi acompanhada por uma ainda melhor, e tão ou mais verdadeira do que a anterior: "Quando ressoas com o outro e com as suas necessidades de forma quase automática levas deles o melhor mas o pior também. E olha que vem muita merda."

Susceptível ou não a estas palavras, fiquei sem saber como poderia resolver este problema de ressonância, e com as minhas lentes preto-e-branco, tive o instinto de passar ao polo oposto de deixar de ajudar, ensinar, envolver-me com, dinamizar, provocar o outro, na esperança de não ser contaminada com o seu lodo, já que já tenho o meu a sobrar e por vezes a extravasar.

Mas rapidamente percebi que talvez seja algo que não posso mesmo abdicar, porque poucas foram as coisas que gritaram tanto por mim como esta de me envolver no outro na tentativa de uma fusão primordial com o lugar-de-onde-todos-viemos. Há mais metafísica nisto do que só caminho a percorrer. Talvez até um destino, ou um lugar-que-preciso-de-ocupar nesta nova vez que me fiz consciência. 

Como poderão perceber meus senhores, os meus serões de conversa com o meu pensamento são qual temática da revista TVMAIS ou TVGUIA.... De um cor-de-rosa místico à procura das verdades no seio das mentiras que diariamente todos contamos uns aos outros.

Em resumo, agora que tenho cada vez mais a consciência de que vou morrer, que não controlo quando acontecerá, que não sei como será, que hoje estou aqui e amanhã posso não estar, há coisas pelas quais não quero ter que voltar a compactuar, como ter que voltar a um trabalho-subsistência-que-me-mate-lentamente, ou relações desapaixonadas que me extingam a chama que me alumia nesta terra, ou dores e doenças que talvez consiga retardar com auto-cuidado e auto-amor. Quero muito viver perto de mim. Numa relação comigo. E essa relação só é possível se for curiosa, apaixonada e criativa. Enfim... 

O tumulto voltou ao meu peito. E aqui dançou ao som do Toy - "Toda a noite.... toda a noite..."

 

___

* Referências musicais abaixo:

 

 

12
Jul21

Sonhos que pressagiam

Humorosa

Dizem que os sonhos pressagiam o que Deus nos quer dizer.

Não o Deus de fora, mas o Deus de dentro.

Aquele que teimamos não escutar,

E que tentamos que se torne domesticado.

Esse Deus que veio connosco pela nossa mão, 

À procura de se auto-conhecer e revelar-se (a nós mesmos).

Hoje sonhei com a transgressão.

Acordei num suor seco, de uma cama quente que não tem jeito de me acolher,

Mas ali fiquei em reboliço, 

Na tentativa de me aperceber que o sonho não era real.

Estava bem fodida se fosse.

Era como se o meu subconsciente, esse Deus, me quisesse lembrar da minha forma rebelde de querer viver.

De me deixar arrebatar pelo Eros que se me afigura como o antídoto da Morte tão temida, e que bem, também ele apanhou covid e anda meio chocho.

É um eros sem E grande, num pardieiro que se autogere, que é como quem diz, onde se vive.

Mas acordei com a frase do Cântico negro nos dentes: "Eu amo o longe e a miragem..."

E uma sensação de que não me poderia continuar a trair, escolhendo aquilo que me mata lentamente.

Esta domesticação.

Porque é que me dizem sempre que por eu querer tanto, significa que eu não os aceito?

Quando na verdade essa questão me questiona exatamente a mim na mesma medida.

Porque é que não aceitam o meu "Longe e a miragem"?

Porque é que "é preciso que eu diminua"?

Porque é que não podem decidir aceder ao esforço de cultivar a terceira entidade que é o Nós, e aí regá-la a meio caminho entre o ser eu e ser ela?

Tenho falado do que preciso. Das necessidades que gostaria de ver supridas. Tenho-me frustrado. Tenho continuado e está tudo bem.

Não quero que o amor seja um negociar de um orçamento de Estado, mas também não quero um Estado que me obriga a condicionar as decisões por um suposto bem maior de se aceitar o que existe porque é tradição de se ser.

Porque eu sei que podemos ser sempre tanto mais...

11
Jul21

De onde venho afinal

Humorosa

Questiono-me diariamente numa busca incessante pelas minhas raízes.

Não pelas raízes familiares que essas conheço bem de perto, e por vezes, é com alguma dor que as sinto a quererem afundar-me na terra enquanto os meus braços se abrem ao céu aberto numa súplica, pedindo que não seja sugada.

Sentimentos de ambivalência acolhem-me nos últimos dias. 

Se por um lado os gémeos soltos que se (es)pasmam ao longo dos dias me dizem saber de onde vim,

E que esses gritos dados por eles, foram os gritos de uma criança que se quis expressar e não pôde,

Por outro lado há um amor maior dentro de mim que procura acolher aqueles gritos do corpo, como se ao acolhê-los pudesse acolher a criança pequena-ferida-perdida-de-si.

Olhar para o corpo que acolhe a alma e descobrir que só agora a alma pode ocupar o corpo não tem sido fácil.

É como devolver uma casa que nunca deveria ter sido ocupada por outro inquilino que não a da vontade do Eu superior. Esse que nunca tinha entendido de onde vinha, onde estava, e quem era, e que na verdade sempre me acompanhou em pensamentos, intuições e horas de puro contacto comigo ainda que no meio das vicissitudes das cidades e pessoas barulhentas...

Eu sempre estive lá para mim. Eu sempre soube o que Eu queria fazer. O que eu desejava. O que eu queria fazer. Só não esperava que as proibições de se-ser-assim me roubassem à vida e me entregassem ao medo da morte. Ser eu era perigoso. Ser eu era punível. Ser eu era consequência de dor. Ter voz era consequência de dor. Falar, pensar, conversar, ser poesia era morte anunciada numa espuma raivosa de ondas que se abatiam sem grande clemência.

Hoje voltar ao mar, mesmo que mais calmo, ainda me agonia. É duro ver-me no momento presente esquecendo tudo o que foi. E como eu gostava de perdoar... Era tão mais fácil. Tão mais fácil. Tão melhor... Tão quero tanto...

Mas o meu corpo não se esquece assim, ele fala-me e segreda-me baixinho, outras vezes bem alto, da dor beligerante que foi ser Eu. 

E eu quero fugir do passado. Quero pôr-lhe uma pedra em cima. Quero viver o meu Presente. Sim, porque eu cheguei cá. Houve momentos em que achei que não chegaria... 

MAS

EU ESTOU AQUI.

Quero viver! 

Quero poder finalmente deixar-me viver como Alma que se veio cumprir nesta derradeira senda de ser em relação com o outro. Em dar voz ao outro como eu quis que me dessem a mim. É como se quisesse corrigir o karma do que aconteceu comigo. E de uma forma visceral não consigo ficar indiferente aos que não têm voz, são maltratados, esquecidos, gozados, marginalizados. 

Não quero que sofram o que eu sofri. E não porque sou uma vítima. Mas porque eu percebi finalmente que toda a raiva que ainda existe guardada dentro de mim só revela que eu sabia que era injusto ser tratada assim, que eu tinha valor e que me estavam a ameaçar o valor que eu sabia que tinha. Eu sabia que tinha valor, eu nunca achei que a culpada era eu. Sempre achei que a culpa era de quem fazia e de quem assistia e compactuava, numa escolha que hoje tento ainda respeitar.

A minha revolta é a prova de que sei que tenho valor, de que sempre soube que o tinha, e agora resta-me, como último reduto, elevá-lo ao patamar da sua plenitude - vivendo através dele, e sabendo que se morrer, morri a tentar ser mais próxima de mim, a única meta de qualquer vida (para além de tantas outras coisas que quero fazer).

06
Jul21

Turbilhões

Humorosa

Pareço um cão a andar atrás da sua cauda.

Rodopio, rodopio, rodopio. É um êxtase ser assim, à procura de mim.

Mas nesse constante rodopio, paro, olho, e descubro o desafio que é ser-se assim.

Quanto mais mergulho e mais desço até ao fundo do poço,

Mais o cheiro a fundo, a lama e lodo me invadem as narinas,

O frio arrepia-me a pele,

Mas sei que tenho que continuar a descer.

Voltei ao poço iniciático.

Lá, sozinha, por minha vontade, desci.

Ainda estou a descer...

Agarro-me ao corrimão nas últimas escadas esperando ver rapidamente a luz do dia,

Mas percebo que só a vejo olhando para cima,

Para o patamar que deixei para trás.

E quando chego ao fim,

Olho para trás como sempre,

E penso como terei chegado ali apesar do medo.

Olhei em frente e apenas vi mais um túnel húmido,

Branco-amarelado e iluminado,

Que me guiou novamente ao jardim-pérola de Sintra.

E hoje? Que caminho Tomar?

(se a resposta lá estivesse, lá voltaria de novo, também sozinha).

29
Jun21

Ambivalência

Humorosa

Escrevo neste momento para libertar a frustração, a angústia e todo o restante cocktail de me sentir a ficar para trás quando gostaria tanto mas tanto de seguir em frente.

Isto de querer tanto viver e de querer tanto fazer parte de algo mais, maior, de cumprir a minha vida (nem que seja só para não ter medo da morte), é uma faca de "dois legumes" (dois que não gosto já agora, pode ser nabo e pode ser couve de bruxelas) porque o meu tanto querer parece que acaba a matar a possibilidade de fazer as coisas com mais calma, mais serenidade. Estou constantemente a forçar-me a ir para a frente, naquele maravilhoso padrão familiar de "push through pain", de "mantém-te alerta", "don't go gentle into that good night".

Sinto-me ambivalente. Se por um lado sinto em mim todo um sentimento de "hopeless" por outro, ainda ontem ao ver o Titanic, me apercebi em como tenho uma enorme esperança em que os maus se redimam, e subitamente, on the verge de uma morte iminente, façam boas ações, ajudem outros ou simplesmente mudem de caráter. Sou uma esperançada em simultâneo portanto. E esta sensação ambivalente é a que eu tenho percebido que caracteriza a vida.

O meu dia de ontem foi uma sucessão de frustração-ação-de-compromisso-sucesso-frustração-ação-de-compromisso-sucesso que se fosse um gráfico seria nada mais nada menos que um eletrocardiograma de alguém a ver o Titanic.

(sim vou falar mais sobre o Titanic)

Nunca tinha visto o Titanic. Talvez por dentro não quisesse ver por saber de que tema se tratava e para desgraças já tenho a minha boa amiga Alice que me carrega por dentro com um blockbuster de filmes automáticos negativos que culminam sempre no apocalipse em cuecas. Ou talvez porque tivesse vergonha de chorar em frente ao meu namorado (coisa que por acaso senti quando as lágrimas começaram a rolar pela cara abaixo como se tivessem cortado mil cebolas a milímetros dos meus olhos), mas que assim que senti deixei de parte... chorei, babei e olha, melhor assim. Lembrei-me de mim em casa dos meus pais a ver filmes destes. Onde toda uma contenção acontecia e quem chorava era fraco ou sensívelzinho... Como se não se pudesse sentir. Ou talvez não se pudesse mesmo.

Tenho vinho a perceber muito da minha história, mas como boa solution-maker que sou queria já era saltar para a resolução final do processo e bora lá que eu quero muito viver, mas não quero andar aqui com merdas ao dependuro, ou com os meus incessantes espasmos nos gémeos que não consigo deixar de valorizar porque imaginem-se a sentir gremlins dentro de vocês a tentar sair-vos pelos gémeos. Se calhar não são gremlins pronto. Já sei que eu exagero. Mas migos, são minhoquinhas a querer encontrar saída pela minha pele que obviamente não confere uma saída de emergência para elas... Tava na altura de encontrarem outra casa. É só o que vos digo.

E depois o meu cérebro cinematográfico o que faz? Mais uma vez, um Titanic a afundar, de uns espasmos nos gémeos, faz deles um Adamastor que engole o Titanic ainda antes de ele se afundar em alto mar. E claro que a única safa da minha sanidade mental é pensar que eu sou a Rose e que eu vou superar esta adversidade, vou viver a minha vida até velhinha, continuando a pintar, e manter a boa disposição e leveza até ao momento em que, cumprindo-se a história lá eu me entregue também a nova forma de ser que desconheço e que por essa razão, de momento me aterroriza como o raio.

Procuro consolo nesta história mas há uma vozinha lá dentro que diz que tenho que aprender a ser mais realista. A ser mais consciente de que as histórias não acabam sempre bem, mas que pelo menos, o que persiste é sempre a sua beleza. E isso ninguém nos pode tirar. E isso, ainda bem que está feito e desenhado para os meus olhos verem. Porque quando vejo a vida, e experiencio este estado de consciência consigo e espero conseguir sempre deslumbrar-me com o que vejo, quer seja duro, feio, negativo ou seja suave, bonito e positivo.

A verdade é que ando a aprender a navegar nestas águas da ambivalência e gostava muito de não me afundar antes de tempo.

Essa é a verdade.

 

23
Jun21

Solta-te, liberta-te

Humorosa

Bons dias a todos e a todas e a todx e a cenas e a coisas.

Ou "Menu Bom dia!" como disse um rapazinho que ao meu lado queria pedir um Menu pequeno almoço na padaria portuguesa.

Mas adiante.

Hoje venho aqui expurgar primeiro os meus demónios raivosos, ao som do Solta-te, liberta-te, isto porque ando aqui num desatino que, ou é de estar a caminhar para cota, ou então é só aleatoriamente chato mas ainda assim irritante.

Ora pois que quem acompanha o meu rico blog sabe que eu tenho nos últimos tempos sido afortunada e me safado de problemas de maior após duas quedas, uma de cu, outra de joelhos, uma situação de desemprego, dentes do siso e lá o caralho, problemas relacionais e existenciais, e ainda - cereja no topo do bolo - lidar com a minha Ansiedade, ou miss Alice como gosto de lhe chamar que por vezes toma várias formas antes de me visitar, seja sob a forma da bela Insomnia, ou do tremelique vibrador, ou do coração-tunning-de-chelas, enfim, uma míriade de formas e desenhos que só ela sabe inventar. Às vezes vêm todos! E aí "vamos fazer uma festa....bolo e laranjada muitos doces para ti... é o teu aniversário...."*

Pois que no meio deste fadário todo, tenho agora também para tocar no álbum "disgraces not so bad because you're still alive" as seguintes músicas:

  • Allergo - uma música cujo beat é feito só com fungar de nariz, pingos de água límpida a cair em lenços de papel e um som áspero de coceira em braços humanos. O refrão é mais ou menos assim:

"Ácarosssssssssss, pêloooooooosssss,

pequenas partículas bailando ao som dos ventos

retirando-me capacidade de pensamentos

deixando vermelho o meu nariz, tal qual petiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiz...

parece constipação, mas não é não,

sei o que é sim... Atchim atchim atchiiiiiiiiiiiiiiiim..."

(obrigada, obrigada, obrigadaaaaaaaaaaaaa!)

  • Flash Lux - uma música visual, feita com dois gémeos em descanso, mas que quando observados ou simplesmente em repouso se assemelham a mesas de mistura com pads luminosos que vão libertando as cores de forma aleatória, pulsando sem que seja pedido e/ou necessário. Este é o conceito de música inaudível visual aleatória. Gémeos cujos impulsos elétricos estão ao rubro em descanso. 

 

  • L'atom dubious - uma música vibracional que só se sente mas não se ouve e que mete todos os átomos em dúvida de tão intensa que é a sua frequência. Arranha por dentro, dá desconforto e faz sentir como se todos os vidros do nosso ser se fossem partir a qualquer instante. É o som da duvida existencial. Do "o que devo fazer?" "Devo escolher uma vida mais fácil, mais em fluxo? ou devo escolher a difícil, a mais dura, a que tenho que fazer overcome para ser mais e melhor?" 

 

Por fim, the last but not the least...

  • Hippocondriah - uma música ambiente sempre presente que sussura baixinho sensualona como aquelas vozes do "me liga vai". "É desta que quinas..." "É disto que vais." "Vai ser grave..." "De certeza que é grave..." "Já viste há quanto tempo andas a ouvir essas canções? Tá grave..." "Bué grave..." "Vai ser o martírio..." "Prepara-te... Estuda tudo, aprende tudo...vais precisar". E assim, sensualona, tenta seduzir-me para o seu espaço (muito pouco) seguro onde vou ser devorada por sereias que na verdade são bichos do mar.

E é isto meus senhores, as músicas que andam a ser o meu dia-a-dia, e que rolam pelo altifalante do meu ser.

Fui...

(só ali baixar o volume).

 

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* Música referenciada:

21
Jun21

Do meu interior nos dias últimos

Humorosa

Como é minhas pessoas assíduas que perceberam que aqui a gaja andou fora do boteco tempo a mais e agora se vem neste preciso momento redimir da sua ausência?

Podia ser bom sinal, sinal de que já tinha encontrado O trabalho. E note-se que me refiro a ele como O trabalho porque tenho feito O esforço de O encontrar e honestamente já começava a ficar na hora de me cruzar com ele.

Tem sido quase uma odisseia ao estilo do Tinder, em que honestamente os sentimentos envolvidos são muito parecidos. Swipe left, swipe left, olha este parece giro - começa a falar sobre vestir a camisola e as horas que temos que dar do corpo ao trabalho ... nop, next, swipe left, swipe left, puta que pariu mas será que não há trabalhos decentes e interessantes a serem divulgados? 

(atendo o telefone)

Sim, sim, é a própria. Entrevista? Claro. Empresa X (murmuro um sim como quem dá a entender que se lembra de ter mandado para lá o CV mas não faz puto ideia nesta fase do campeonato se mandou, se entregou em mãos, se mandou entregar, se foi um senhor do uber eats...). Ah então foi porque fui referenciada que vocês gostam mais de ter pessoas referenciadas (para não se portarem aparentemente tão mal por vergonha alheia né) do que fazer todo o processo de tentar CONHECER as pessoas. Pois claro. Ah e então é por isso que não existia anúncio(s de jeito). Pois sim sim, vamos agendar.

(desligo o telefone)

Penso para com os meus botões como já sinto que neste momento me parece que me estou a prostituir, deixando à vista os meus melhores atributos, numa tentativa de "olhem-me para este PAR... de ideias geniais que tenho neste meu cérebro super ativo e que só queria uma casinha fixe para lhe darem espaço para fazer coisas giras".

Mas o problema é que ao fim de quase 6 meses (que na verdade são 18, porque eu ando à procura desde Março do ano passado quando estava empregada e a ver que "isso ia dar merdaaaaaa... isso ia dar merda.... e deuuuu"* neste momento até os pedidos de exercícios dinâmicos e cenas fixes que eu tenho tanta pica para fazer já me parecem absurdos, anormais e um pedido que me tira do sério, porque de todas as vezes em que investi o meu tempo, me meti todinha todinha lá, veio de lá um "RADONDO" não, ou pior, *som de erva a rolar no deserto*, é do caralho minha gente. É do caralho. Não admira que o tempo ande tripolar, ou somos nós a dar-lhe espelho ou é culpa dele que andamos assim, sem tempo a perder para nos conhecermos mas queremos muito ser uma super equipa.

A melhor equipa. A equipa com mais liderança. Com o líder que é diferente de ser chefe, frase que me faz vomitar a cada vez que a oiço ou a vejo apregoada a uma foto pôr-do-sol num qualquer facebook ou até, pasme-se, linkedin perto de si.

Estamos numa era do PARECER. E para parecer não precisamos de ser. E quem é, está sujeito a um escrutínio, a uma carcerização, a ser convidado a ser original-mas-não-tão-alto-que-é-preciso-fazer-o-fit-nestas-quatro-paredes-pintadas-a-cin-ardosia-para-escrever-frases-inspiradoras-que-nao-usamos-mas-que-ficam-bonitas-nas-paredes-para-motivar-equipas.

Como dizia a outra "Blá blá blá Whiskas saquetas."

E quem quer fazer a revolução, como SEMPRE, historicamente, ou vai ficando de fora, ou é cauterizado, encostado para canto, começando a achar que não vai encontrar um espaço onde possa ser verdadeiro e cumprir o seu propósito. Sendo que a palavra propósito também já me dá calafrios. Que isso de propósito também é algo que podia ser melhor definido como algo que podemos fazer para maximizar o potencial da humanidade. Aí, ninguém andaria em coaching à procura do seu "propósito" porque caramba, esse propósito todos o temos, e se por ele fizermos algo já a nossa vida passou a ter um sentido e algo a que nos agarrar nesta viagem por vezes tão curta mas que temos e DEVEMOS saborear.

Ontem fui ver a exposição do Ai weiwei e foi toda ela um soco no estômago. Toda.

Para mim foi a prova de que a Liberdade de expressão, de existir com ideias próprias, continua a ser vista como uma afronta nos dias que correm e que realmente o potencial do Ser humano existe nas suas polaridades. Podemos fazer TÃO BEM, mas conseguimos fazer TÃO MAL a quem é diferente de nós, a quem nos pode fazer causar desconforto porque nos aponta para o sítio que fede, que tem problemas e que a maioria teima em não ver.

Ontem senti-me o Ai weiwei da minha família. E mais uma vez fui ao fundo do meu trauma quando falava para a minha mãe sobre a exposição e o quanto eu amei e senti que tinha que sair dali para fazer algo pelo mundo, pela humanidade, nem que fosse continuar a dar aulas de yoga porque já estou a contribuir para o bem-estar de algumas pessoas e pessoas que estão bem não têm necessidade de fazer mal. Como se quisesse sair dali a correr para continuar a fazer a minha parte, a alavancar a minha parte. A fazer o meu pedaço pelo mundo. A dar sentido ao estar Aqui e agora. E de repente do outro lado da linha, mais uma vez, como sempre faz e fez, um desvio de conversa, um ouvir tácito, implícito, como quem ouve porque faz parte, mas que não consegue ir além disso.

A minha mãe está cansada. Muito cansada. É enfermeira desde os 13 anos. É daquelas cuidadoras que põe os outros à sua frente e as suas necessidades (muitas das quais desconheço) nunca são ouvidas. Mas essa é a história dela. Se ela se empoderasse. Queria tanto mas tanto ouvir o seu grito de revolta. Talvez porque eu continuo a tentar dar o meu. A tentar fazer as pazes com o ser a "ovelha negra" da família, mas com uma certeza visceral que há ciclos que quero quebrar e não quero trazer comigo a bem da Humanidade que virá depois de mim...

Ou de mim.

Na exposição do Ai weiwei vi muitas atrocidades humanas. Lembrei-me de como Humanidade temos evoluído do breu escuro, peçonhento e podre para a luz, ou na tentativa de a alcançar, como um girassol.

E o mundo continuar a girar, contra todos os que diziam que quem girava era o Sol.

 

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*A música a que fiz referência é esta pérola:

23
Mai21

Vamos lá dar a volta isto (outra vez...)

Humorosa

Tenho andado a arrastar-me aos 7 ventos,

Sem saber se são 7 ou mais,

E a única certeza que tenho,

é que não tenho certeza nenhuma.

Tudo me parece tão leve, tão perene, tão intocável,

É como se o momento presente se consumisse numa memória em instantes,

E o momento futuro fosse sempre feito de um desastre-quase-certo-a-acontecer.

Tenho medo. Ando cheia dele. Até às pontinhas dos cabelos.

E passo os dias a viver como se tivesse óculos da google,

que a todo o tempo me mostram o meu maior medo: MORRER AGORA.

E de repente passo todos os instantes a cismar que posso morrer a qualquer momento,

(porque há uma voz interna que diz que posso mesmo e bom, a ciência diz o mesmo),

(Eu bem tento lidar com esse pensamento sempre que ele aparece com a música do "AH AH AH STAYING ALIIIIIIIVEEEEEEE" "Still here" "Desfruta!!! Cheira, delicia-te, ouve, vê, toca"... acho que ainda não funciona bem. Tenho que repetir mais vezes)

E de repente porque a minha agonia se cola a esse pensamento,

Vivo, experiencio, e deleito-me com a vida numa qualidade de brinquedo da loja do chinês: serve, usa-se mas sabemos que se olharmos bem aquilo vem com um defeitozinho qualquer e/ou quiçá tenderá a partir brevemente.

Enfim, réplica do que poderia ter sido uma experiência de qualidade vá.

E é aí que me encontro presa - numa vida com pensamentos que me constringe o sentir num clepe plimavera.

E a merda toda é que como hoje fiz o turno da noite, não consigo ser mais humorosa que isto, 

E há assim uma pequena frustração que fica por não estar a conseguir sair da bolha,

Uma impaciência de quem queria que tudo isto se resolvesse,

E que honestamente gostaria de acreditar que tinha curado a Alice para sempre.

(A Alice é aquela gaja apressada que acelera o relógio do Coelho e que vive no país das maravilhas... ou para o comum dos mortais - a minha Ansiedade)

Sinto agora que a meti debaixo do tapete, 

Que me achei dona e senhora, rainha de um reinado que a expulsava das minhas terras,

E agora percebo que talvez a melhor abordagem seja a cooperativa (não tivesse eu hoje ido provar sidras ao Bombarral).

Isso e a aceitação de que este pacotinho traumático veio com a je, proveio da história de vida da je, e há uma parte que é chance (esta de ter provindo da história da je), e outra que é escolha... Aquela que faço todos os dias para tentar continuar com amor a propagar o que tenho vindo a sentir que sou - o sorriso fácil, o apoio ao outro, a palavra carinhosa, o cuidado em ensinar e partilhar palavras e conhecimentos úteis, em suma, uma pequena nerdzinha dos life hacks da vida que adoraria ter assim um Mestre Japonês a dizer-lhe os segredinhos de como conviver com uma mente tão elaborada como a sua.

E de repente lembro-me de um Mago que me perguntou se abdicaria de sentir tudo e ver tudo como sinto, só para encaixar mais no ram ram da sociedade, e eu a cada dia que passa, apesar de a decisão carregar consigo também dor, sei bem no meu íntimo que não.

E que um dia, ou em vários dias por breves momentos, vou estar tão apaixonada pela vida como ela é, como já estive, que o deslumbramento vai engolir de uma vez por todas o medo e eu vou aceitar que o Instante que sou, em si, foi, é, e será o tempo que tiver que ser, aquilo que eu tinha mesmo que viver. A minha parte aqui no mundo. O que tinha que fazer. E o que tem que ser, tem muita muita força. 

18
Mai21

Só por hoje, um poema que não é meu, mas que poderia ter sido.

Humorosa

LOVE AFTER LOVE
by Derek Walcott

The time will come
when, with elation,
you will greet yourself arriving
at your own door, in your own mirror,
and each will smile at the other’s welcome,
and say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was your self.
Give wine. Give bread. Give back your heart
to itself, to the stranger who has loved you

all your life, whom you ignored
for another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,

the photographs, the desperate notes,
peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life.

17
Mai21

Ferrolho para o vislumbre da eternidade

Humorosa

(adaptação do meu humor poético de hoje escrito à mão ...

fragmento adaptado e polido de "Chaves para a imortalidade")

 

Lembrar-me-ei que se tem prazo de validade é porque é para consumir a/com tempo.

E como tão bem sei fazer quando como,

deleitar-me-ei, deliciar-me-ei, demorar-me-ei,

a ver mundos, fundos, espaços, pessoas,

movimentando alegrias, emoções, paixões,

criando-as em rede, deixando-me na nuvem,

sendo novo sol, poeta nos corações.

Lembrar-me-ei diariamente do que quero ser enquanto continuo a ser grande: uma alegria sem igual.

E que perca o título de guerreira, porque agora, é para me lambuzar de vez com o que Sou.

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